Perder um filho que não chegou a existir

Quando crescemos e nos apaixonámos por uma pessoa imaginamos partilhar o resto dos nossos dias com ela, constituir família e ter os nossos filhotes. Esperamos que a vida melhore, concluir o curso, começar a trabalhar, juntar um dinheirito, ter oportunidades de viajar, conhecer novas pessoas e culturas antes de assentar e, quando tudo estiver em paz e sossego, ter filhos. Pois…. Meses se passaram e em todos eles era a desilusão total, devastadora e silenciosa, ainda mais quando a nossa única chance de ter um filho passa por FIV/ICSI.

Completamos o nosso primeiro ciclo ICSI. Primeiro, porque o resultado foi negativo, e isso significa que haverá um segundo. Quando? Não sabemos ainda. O médico bem nos animava dizendo que por sermos jovens e saudáveis as chances eram óptimas de o tratamento ser bem sucedido à primeira tentativa. Apesar de sermos realistas e termos os pés bem assentes no chão, obviamente esperamos sempre o melhor desfecho em casos de tratamento de infertilidade e esperamos optimistas pela tão desejada gravidez. Tal não aconteceu.

O título deste post parece impossível, inverosímil, fantasioso, digno de título de um filme de Hollywood. Eu sei. Mas é assim que me sinto. Não sei em que dia foi. Não sei a que horas foi. Não sei em que momento foi. Sei que foi. Sei que colocaram o tesourinho dentro de mim no dia 19 de Agosto de 2014, o dia a seguir ao meu 31.º aniversário e o nosso 2.º aniversário de casamento. Não foi planeado coincidir com a data, apenas o decorrer do tratamento levou a tal. Mas achámos que seria um bom presságio. Vi-o entrar dentro de mim pelas 15h00 desse dia. Sei que esteve comigo durante algum tempo, não sei quanto, mas sei que o tive. Falei com ele. O papá falou com ele. Pedimos-lhe que ficasse no quentinho durante nove meses e, depois desse tempo, nos viesse alegrar o coração e a alma. Nós queríamos. O tesourinho não quis. A dor que sinto em mim é indescritível, é esmagadora, destruidora. Nunca pensei que pudesse existir dor tamanha. Gostaria de nunca mais sentir algo assim, mas… E o Mr. Red resolveu dar a cara ontem. Nem chorei… A dor é enorme mas ainda não chorei…

O tempo, diz o povo, atenua a dor.  Como é que se atenua a dor da perda de um filho? Eu sei que ele não chegou a ser um bebé, sei que era apenas um grupo de células que se iam dividindo e que só depois de se aninhar em mim seria um bebé. Isto é a ciência. No meu coração era o meu bebé, o nosso desejado tesourinho.
“Morre um capim, nasce outro” já dizia Chico Xavier. Às vezes a raiz do capim é mais funda do que imaginamos, por isso demora pra atingir a superfície. Mas a persistência, aliada a resignação, ao foco, a força e a fé nos levam ao que antes parecia ser impossível.
Agora, apoiamo-nos um no outro, como sempre, e nos nossos patudecos, que pressentem que não estamos bem e não se cansam de nos mimar sem parar.
Desistir nunca! Mas está na hora de uma breve pausa nesta luta!
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2 pensamentos sobre “Perder um filho que não chegou a existir

  1. : ( Não sei o que te dizer a não ser força, fé e esperança. Acredita que o teu desejo de ser mamã um dia irá transformar-se em realidade.
    Beijinho

  2. Irá, sim. Tu és nova e pareces determinada. Se não foi desta, há de ser da próxima. Acredita.
    Entretanto, tenta fazer tudo o que gostas e que não podias por causa do tratamento.
    Beijo Grande

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